Atividade Física

A atividade física como promotor da saúde

     A busca ativa pelas melhores condições do envelhecimento é denominada Promoção da Saúde do Idoso que, segundo a Organização Panamericana de Saúde (OPAS - 1992), foi conceituada como "ações que se manifestam por alterações no estilo de vida e que resultam em uma redução do risco de adoecer e de morrer".
     Por entendermos ser esta questão eminentemente gerontógica, criamos em 1985 o termo senecultura, definindo-o como "conjunto de ações interdisciplinares cujo resultado contribui, efetivamente, para a Promoção da Saúde do Idoso".
     Dentre os inúmeros fatores que podem contribuir para a obtenção destes resultados, a prática de atividade física vem assumindo papel fundamental nos diferentes níveis de intervenção. Infelizmente, porém, apesar do grande acúmulo de evidências que justificam os seus benefícios, todos os avanços tecnológicos têm propiciado uma progressiva redução das atividades motoras, seja no âmbito da moradia, do trabalho ou do lazer.
     Trata-se, pois, de um interessante paradoxo. Ao mesmo tempo em que justificamos, cada vez mais, a prática de atividade física pelo maior número de pessoas, observamos uma progressiva tendência da sociedade, principalmente nos grandes centos urbanos, em limitar ao máximo as suas possibilidades de movimentação.
     A prevalência do sedentarismo é elevada em qualquer faixa etária. Atualmente, torna-se preocupante até em crianças mas, dentre os adultos jovens e principalmente nos idosos, chega a cifras superiores a 90%, o que exigirá de todos os profissionais e instituições relacionadas à Promoção da Saúde do Idoso uma verdadeira força-tarefa para reduzir estas estatísticas alarmantes.

SEDENTARISMO: FATOR DE RISCO OU DOENÇA

     A cada novo estudo que compara a incidência, prevalência, gravidade, eficácia da terapêutica e mortalidade da maioria das doenças crônico-degenerativas, bem com de suas complicações, são demonstradas as influências da atividade física em proteger (ou do sedentarismo em prejudicar) a sua evolução.
     São reconhecidos os efeitos deletérios do sedentarismo em praticamente todos os fenômenos biológicos, fisiológicos ou fisiopatológicos, dentre os quais podemos destacar:
  - Aterogênese
  - Capacidade ventilatória
  - Captação de oxigênio pelos tecidos
  - Coagulação do sangue
  - Composição dos lipídios plasmáticos
  - Equilíbrio emocional
  - Equilíbrio hemodinâmico
  - Estado de humor
  - Estabilidade articular
  - Imunidade humoral e celular
  - Massa e qualidade muscular
  - Memória e cognição
  - Metabolismo dos hidratos de carbono
  - Motilidade intestinal
  - Neoformação vascular
  - Obesidade
  - Osteogênese
  - Sociabilização

     Estas evidências são confirmadas por ampla e crescente literatura, muito mais densa nas últimas duas décadas, envolvendo casuísticas de variadas idades, de ambos os sexos e portadores de diferentes estados de saúde.
     Além de serem frequentemente predispostos a todas estas condições em que o sedentarismo se comporta como importante fator de risco, os idosos podem apresentar uma outra condição peculiar. Não é raro que encontremos um paciente acamado cujo histórico clínico demonstre que o início da sua limitação foi decorrente de uma situação episódica, geralmente circunstancial (dor, queda, ausência temporária do cuidador, condições ambientais, dentre outras) e que, com o passar do tempo teve sua movimentação progressivamente comprometida.
     Esta condição é conhecida por síndrome da imobilidade ou imobilismo e constitui um dos cinco principais problemas que podem comprometer a saúde do idoso (Cinco Is ou Cinco Gigantes da Geriatria).
     Quando devidamente diagnosticada e tratada, há recuperação (por vezes plena) da aptidão motora e conseqüentemente da auto-estima, o que muito contribui para o aumento da independência e da longevidade. Caso não detectada, o paciente passa a ser alvo de inúmeros procedimentos que visam tratar suas conseqüências, sem que a causa comum seja abordada, o que limita muito a eficácia destas ações.
     A atividade física tem-se confirmado como o principal procedimento terapêutico da síndrome da imobilidade, donde podemos entender que o quadro funcional desfavorável tenha se instalado pela progressiva redução da atividade motora e, por intermédio da sua reativação, seja progressivamente revertido.
     Assim, fica evidente que o sedentarismo pode ser, isoladamente, responsável por grave estado de limitação da saúde do idoso, mormente os mais longevos  e o seu tratamento, exclusivamente baseado na prática de atividade física, tem a capacidade de restituir a estes pacientes o seu estado funcional prévio, a despeito de quaisquer outras ações terapêuticas dirigidas às demais co-morbidades presentes.
     Esta condição deve caracterizar o sedentarismo como uma doença potencialmente responsável por importante limitação funcional em idosos e cujo tratamento específico, com atividade física programada, pode evitar sua instalação, limitar a progressão ou mesmo corrigir as disfunções dela decorrentes.
     Concluímos, portanto, que sedentarismo é uma doença particularmente importante entre idosos, que pode ser prevenida ou tratada pela atividade física devidamente orientada.
     Dentre as causas mais comuns do sedentarismo entre idosos, devemos salientar:
     Orgânicas: são freqüentes as justificativas de interrupção da prática de atividade física por algum tipo de lesão que, mesmo em idade jovem, foi utilizada como fator limitante para a sua continuidade. Por vezes contribuem para esta limitação a opinião médica que, pela falta de conhecimento sobre a importância da atividade física para o estado global da saúde, desaconselha sua continuidade sem qualquer razão justificada. Como veremos adiante, são poucas as situações clínicas que contra-indicam a sua realização. Exceto nestas, sempre haverá uma alternativa segura para dar continuidade à programação, a fim de não permitir a sua nefasta interrupção.
     Culturais: além de haver um tradicional estímulo para evitar qualquer atividade motora entre as ações cotidianas, por serem estas entendidas como sinal de menor status econômico, há também o excesso de cuidados de quem priva o idoso das suas potencialidades, tornando-os cada vez mais passivos e, com isso, comprometendo as suas autonomia e independência. Haveremos de presenciar o dia em que um idoso subir um ou dois lances de escada não será considerado "desnecessário" nem "temeroso" por aqueles que aprenderam a depender exclusivamente de elevadores ou de escadas rolantes.
     Ambientais: dependendo do local em questão, existem verdadeiras "armadilhas" no trajeto destinado à locomoção de idosos: irregularidades do solo, ausência de corrimões, de semáforos, de faixa de pedestres, presença de vendedores ambulantes, ciclistas, “skatistas”, patinadores, etc. Poucos ainda são os espaços adequados à prática segura de atividades físicas nesta faixa etária.