Atividade Física

Ter saúde ou ter doenças?

     Durante muito tempo e, infelizmente ainda hoje, este tipo de questão cria um importante viés no entendimento sobre o assunto.
     Para muitos ainda persiste a idéia de que saúde e doenças são antagônicos e que a presença de um decorreria da ausência do outro.
     Perigoso engano.
     Saúde, em verdade, vai muito além da inexistência de doenças e, por outro lado, não depende desta condição.
     Há mais de meio século, mais precisamente em 1947, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu que "saúde é o estado de pleno bem estar físico psíquico e social".
     Há que se entender melhor a importância deste conceito, pois muitos dos principais descaminhos que envolvem o tema decorrem do seu desconhecimento ou da sua má interpretação.
     Aqueles que, por exemplo, entendem que só tem saúde quem não tem doenças fazem o possível para não diagnosticá-las. Escondidos por trás do falso álibi de que "quem procura, acha", privam-se de todas os benefícios do diagnóstico precoce das enfermidades, fase sabidamente muito mais favorável para a sua cura ou tratamento adequado, antes que as conseqüências habituais decorram.
     Outros, igualmente equivocados, submetem-se à inexorabilidade das doenças entendendo que são estas inerentes ao envelhecimento. Utilizando de jargões como "a idade do condor: com dor nas pernas, nas costas ... " ou do famigerado "com essa idade você queria o que ?" divulgam a nefasta confusão entre a senescência e a senilidade que tanto contribui para os preconceitos que afligem aqueles que temem envelhecer.
     Ainda mais importante, porém, é a freqüente incapacidade de admitir que a existência de doenças bem cuidadas e controladas é perfeitamente compatível com o estado de saúde definido pela OMS. Por mais paradoxal que possa parecer, é exatamente isso que acontece com a grande maioria das pessoas saudáveis nas fases mais avançadas da vida. Praticamente nenhuma delas está isenta de enfermidades mas, e isso é o fundamental, desde que adequadamente administradas, não as priva da sua integridade funcional.
     Façamos um teste. Escolhamos, em meio aos nossos conhecidos, o octagenário que gostaríamos de ser. Aquele que mantém sua autonomia e independência, reconhece suas limitações e lida bem com isso, contribui, ao seu modo, para a comunidade na qual está incluído, tem planos para hoje e para amanhã, enfim, goza do "pleno estado de bem estar físico psíquico e social".
     Posso garantir, sem medo de errar, que este idoso saudável, é portador de três ou quatro enfermidades, tem igual ou maior número de sintomas e necessita de alguns cuidados para manter-se estável. Sabe, porém, dar às doenças e suas conseqüências (manifestações e tratamentos) o seu devido valor. Por isso é capaz de desempenhar, com prazer e competência, os papéis que escolheu para esta fase da vida.
     Vamos encontrá-lo dirigindo seus negócios ou seu veículo, opinando sobre economia ou sobre novelas, participando das reuniões de condomínio ou das festas de aniversário dos bisnetos e fazendo os exercícios e dietas recomendadas, além da utilização dos medicamentos prescritos.
     Soube adequar, junto às pessoas que escolheu para orientá-lo, uma relação custo-benefício favorável às suas expectativas e possibilidades. Neste sentido, o tempo e a experiência de vida são grandes agonistas na tomada de decisões.
     Esta será a melhor, se não a única, opção para que possamos transformar esta crescente expectativa de vida prevista para o Século XXI em um real benefício para o indivíduo e para a sociedade.
     Chega, pois, de temer e combater o envelhecimento.
    A luta real, efetiva e eficaz é aquela que travaremos contra as doenças, seus determinantes e conseqüências, nos âmbitos físicos, psíquicos e sociais visando a promoção do envelhecimento saudável.